Análise: IGF 2007 confirma função do ICANN, mas debate novo gerenciamento
Veículo: IDG Now! - 19/11/2007
Palavra de ordem do Internet Governance Forum 2007, "multistakeholder" se torna modelo ideal para que ICANN se desvincilhe dos EUA.
Não houve palavra mais proferida, escrita e debatida no Internet
Governance Forum 2007, realizado pela ONU no Rio de Janeiro entre os
dias 12 e 15 de novembro, do que "multistakeholder".
Aplicado à
maneira como a internet é gerenciada no mundo, o termo de difícil
tradução literal para o português - em uma expressão, a definição pode
ser "sistema com múltiplos responsáveis" - estampou livros, análises e
os principais discursos, ilustrando a crescente preocupação de
aproximar a maneira como a web é administrada de parcelas cada vez
maiores.
E aí não se aplica apenas as decisões divulgadas pela Organização da Internet para Designação de Nomes e Números (da sigla em inglês, ICANN), composta por executivos e representantes de diversos países, ou pelos países que compõe o Governmental Advisory Committe do ICANN.
Entre
extremismos de alguns norte-americanos que se posicionam donos da
grande rede e clássicos inimigos políticos dos Estados Unidos que se
negam a usar a internet no atual modelo de gestão, os debates do IGF
2007 mantiveram uma imparcialidade política que indicou uma propensão
para que o ICANN se aproxime ainda mais dos países que ajudam a compor
a grande rede.
Foi esta certeza que Vint Cerf, ex-presidente do conselho do ICANN e
apontado como pai da internet por ter criado os protocolos TCP/IP junto
ao pesquisador Bob Khan, deu ao detalhar para o IDG Now! as principais dificuldades que o órgão regulador da web enfrentará em médio prazo.
A
espinha dorsal de grande parte da desconfiança e insatisfação com o
ICANN no mercado internacional é sua histórica dependência do governo
dos Estados Unidos, que tem raízes na própria criação da internet - o
grande pulo comercial dado pela web a partir dos centros de pesquisas e
universidade foi financiado pelo Departamento de Comércio dos Estados
Unidos.
É daí que vem a grande preocupação entre os que não vêem
a internet, um grande conjunto de redes criadas e operadas em centenas
de países, com um órgão gerenciador que tem ligações majoritárias com
apenas um país, algo que o subsecretário geral para assuntos econômicos
e sociais da ONU, Sha Zukang, classificou como algo "não natural".
"Kofi
Annan (ex-secretário geral da Organização das Nações Unidas) me falou
que o histórico é algo que não se apaga", alegou Paul Twomey, CEO e
presidente do ICANN em conversa com o IDG Now! nos corredores do IGF.
O
ICANN foi criado em 1998 pelo governo norte-americano como uma entidade
supostamente independente que tanto definisse padrões para a internet,
como formatos e tipos de domínios, como coordenasse tecnicamente a
definição de endereços IP e gerenciasse o root server da internet.
Nos
nove anos em que administra a internet, a lista de obrigações do ICANN
para com o governo norte-americano diminuiu de algo que Twomey
exemplificou como "um calhamaço de folhas para um acordo que tem apenas
duas páginas", o que demonstra uma crescente independência da entidade.
Mais que isto: para rebater a suposta acusação de influência dos
Estados Unidos no ICANN, o executivo explica que, dos 15 membros do
atual conselho da organização, apenas três são norte-americanos. E
ainda relembra que países historicamente em conflitos políticos com os
EUA, como Iraque, Irã e Coréia do Norte, tiveram seus domínios ccTLDs
(como ".iq", ".ir" e ".kp", respectivamente).
Pelo atual acordo,
o ICANN ainda é ligado à gestão norte-americana em dois pontos. O
contrato prevê que o domínio genérico ".com", mais popular do planeta,
tenha aval dos Departamentos de Comércio e Justiça dos EUA, que limitam
preços para defender a concorrência do setor, e que qualquer alteração
no root server que possa alterar a estabilidade da rede seja comunicada
ao Departamento de Comércio, que pode vetar a mudança - embora,
historicamente, nunca tenha feito isto.
Segundo o acordo mais recente, definido em setembro de 2006,
o governo norte-americano e o ICANN se manterão conectados até o dia 30
de setembro de 2009, com possibilidade de estender a ligação por mais
dois anos ou não renovar o contrato, o que faria da entidade,
tecnicamente, um órgão totalmente independente.
A partir das
dúvidas levantadas pelos especialistas ouvidos pelo IDG Now!, fica
difícil precisar se o contrato será renovado. Há dois grandes problemas
que precisariam ser resolvidos urgentemente antes de tentar deixar o
ICANN se sustentar sob suas próprias pernas. E ambos têm relação
intrínseca com o conceito de multistakeholder debate à exaustão durante
o IGF 2007.
O primeiro diz respeito ao modelo que será empregado
para formar um grupo que traga representantes da iniciativa privada,
dos governos já envolvidos com o ICANN e, principalmente, da sociedade
civil que não se apóie exclusivamente na diplomacia entre países que
uma entidade como a ONU usa como base atualmente, por exemplo.
Quem
cita a organização para explicar o impasse que o ICANN se encontra é
Vanda Scartezini, brasileira membro do quadro de diretores do ICANN
cujo mandato termina em novembro. "A única coisa que falta é o modelo
novo, já que ainda existe esta observação privilegiada (dos EUA).
Quando se encontrar um modelo que possa ser aceito internacionalmente,
será mudado", garante.
O que ainda não está claro, explica
Vanda, é a maneira como países terão maior participação nas decisões
tomadas pelo ICANN. Atualmente, o GAC debate questões que impactarão na
internet e, por meio de um representantes, levam seu parecer para o
conselho do ICANN, que, caso rejeite questões, tem que publicar
documentos explicando as razões.
A suposta falta de representatividade leva um grupo de pesquisadores
envolvidos na questão a defender uma maior representatividade direta
dos países, como defendeu Milton Muller, professor da Universidade de
Syracuse, em Nova York, durante o IGF.
Para ele, existem duas
saídas em curto prazo para o ICANN: ou os países ganham direito a voto
para que possam se sentir genuinamente representados ou a entidade
deveria fechar o GAC que, neste modelo, não atenderia às necessidades
de cada país.
"Votação direta é totalmente inviável", acredita
Vanda, em opinião ecoada por Demi Getschko, diretor do Núcleo de
Informação e Coordenação do NIC.Br e ex-conselheiro do ICANN, que
também descarta a possibilidade do ICANN se tornar um braço da ONU ou
mesmo da União Internacional de Telecomunicações, o que exige que, em
médio prazo, o ICANN encontre um modelo de administração com múltiplos
envolvidos para se desvincilhar totalmente do governo norte-americano.
Caso
o modelo multistakeholder tenha sucesso no ICANN, o órgão que gerencia
a internet mundial pode muito bem servir de exemplo para outras
entidades que aproximam governos, iniciativa privada e sociedade civil,
a começar pela própria ONU.
"Acho que em algum tempo até as Nações Unidas virarão multistakeholder.
Ao começar começar a dar opinião pela internet, a população se sentirá
representada de fato pelos governos. E a ONU vai ter que se abrir ainda
mais", aposta Vanda.
