Divisão de países ricos e pobres marca IGF 2007
Veículo: O Estado de S. Paulo - Caderno Link - 19/11/2007
![]() |
| DE OLHO NA WEB - Evento contou com nada menos do que 91 mesas de discussão durante quatro dias |
Em encontro da ONU, participantes discutiram inclusão digital, segurança e direitos autorais, entre outros temas
Um racha entre países pobres e
desenvolvidos marcou a segunda edição do Internet Governance Forum
(IGF), que ocorreu na semana passada, no Rio. Durante quatro dias, um
hotel na Barra da Tijuca transformou-se no centro de cabeças pensantes
da rede mundial. Políticos, ativistas, executivos, curiosos... Gente de
todo o tipo e de todo o mundo reuniu-se para debater o futuro da
internet no evento, promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU).
A
principal discussão foi sobre a universalização do acesso. Logo na
abertura, um desfile de idiomas, sotaques e vestimentas típicas
destacou: “Chegamos a 1 bilhão de internautas no mundo. Agora, queremos
o próximo bilhão, e depois o outro, e o outro... Faltam 5.” O
secretário de Tecnologia da Índia, Jainder Singh, apontou as
dificuldades para conectar o país. “Somos reconhecidos como produtores
de tecnologia, mas a internet não é um bem comum. Especialmente nas
áreas rurais, ela não existe.”
Países em desenvolvimento também
reclamaram da falta de diversidade na rede. “O mundo tem 9 mil línguas
e apenas 500 estão na internet, sendo que 90% do conteúdo é produzido
em apenas 50 idiomas”, afirmou o diretor da ONG Funredes, da República
Dominicana, Daniel Pimienta. O fundador da ONG Africa Network Operators
Groups, de Togo, Alain Aina, concordou. “Temos de fomentar o conteúdo
local, para não perdermos a nossa identidade”, arrematou.
O
discurso de inclusão e diversidade enfrentou resistência dos países
ricos. Como já contam com acesso disseminado, seus representantes
defenderam que é hora de se preocupar mais com a segurança na rede
mundial.
“Mais do que inclusão digital, devemos falar de
privacidade e segurança”, disse Catherine Trautman, do Parlamento
Europeu. “Sem estabelecer leis que protejam os usuários, não há
liberdade garantida na rede. Há risco de abusos contra crianças.”
O
secretário das Comunicações da Itália, Luigi Vimercati, foi mais fundo.
“É preciso criar regras para garantir que todos tenham a possibilidade
de aproveitar a rede com segurança.”
Em três andares, todos com
Wi-Fi, representantes de mais de 100 países travaram ainda debates
sobre pornografia, direitos autorais e até lingüística. Foram nada
menos do que 91 mesas de discussão e um total de 1.400 participantes,
que chegaram a ficar até sem almoçar para acompanhar a maratona.
O
Brasil compareceu com uma tropa de choque de quatro ministros: Gilberto
Gil, da Cultura; Sérgio Rezende, da Ciência e Tecnologia; Hélio Costa,
das Comunicações; e Roberto Mangabeira Unger, da Secretaria de
Planejamento de Longo Prazo. Este último, inclusive, causou sensação.
Com um discurso inflamado e cheio de frases de efeito – como “Temos de
fazer da internet prática universal da imaginação libertadora” e “A
rede é um manancial de alternativas, pode derrubar ditaduras econômicas
e sociais” –, foi aplaudido efusivamente por vários dos gringos, que
saíram perguntando: “Who’s that Mangabeira?” (Quem é esse Mangabeira?).
As
discussões também se concentraram na questão do direito autoral. “A
violação da propriedade intelectual aumenta na web. Isso deve ser
discutido”, afirmou Vittoria Bertolla, da ONG italiana Societá
Internet. O ministro Gil, que estava na mesa, disse que a web não é
ameaça. “Ao contrário, aumenta a diversidade. Estamos desafiados a
encontrar formas legais de distribuir músicas e filmes pela rede.” Já
Robin Gross, da ONG norte-americana IP Justice, foi mais enfática:
“Precisamos acabar com os direitos autorais. A lei tem de se adaptar.”
Porém,
depois de horas de discussões que mostravam a divisão entre ricos e
pobres, como tudo no Brasil, o IGF acabava em... samba. Um coquetel
diário com caipirinha, chope, canapés e bufê de pratos típicos
brasileiros reunia todo mundo no andar superior, enquanto baianas
vestidas a caráter perambulavam entre os participantes. Nenhuma
resolução foi assinada. O próximo IGF vai ocorrer na Índia, em 2008

