Fórum Nacional de Direito Autoral discute atualização da legislação brasileira
Veículo: Observatório do Direito à Comunicação - 04/12/2007
Será lançado no próximo dia 5 o Fórum Nacional
de Direito Autoral, organizado pelo Ministério da Cultura – MinC e pela
Fundação Nacional de Arte – Funarte. O seminário de abertura é a
primeira de uma série de atividades: no próximo ano, serão cinco
seminários nacionais, um internacional e onze oficinas regionais e
temáticas. Como fio condutor, as contradições do direito autoral na era
digital, e a conseqüente necessidade de reformulação do marco legal
brasileiro.
“Ainda que a lei de Direito Autoral (Lei 9.610)
seja recente, de 1998, ela tem uma concepção historicamente datada, que
segue uma coerência analógica”, afirma o advogado Guilherme Carboni,
que participará de uma das mesas do seminário.
Carboni afirma
que a lei precisa ser reformada como um todo, mas destaca alguns pontos
cuja alteração é mais urgente. Entre eles, os artigos que permitem
determinadas liberdades de uso sem a necessidade de autorização do
autor. Atualmente, entre as poucas exceções previstas na lei brasileira
está “a reprodução, em um só exemplar de pequenos trechos, para uso
privado do copista, desde que feita por este, sem intuito de lucro”,
considerada bastante restritiva pelo advogado. “As regras sobre
limitações são as mais importantes, porque é nesse ponto em que travam
os temas de interesse público e privado”, completa Carboni.
“Com
o Fórum, queremos mobilizar a opinião publica e obter um amplo apoio da
sociedade civil e dos segmentos envolvidos diretamente com a questão do
direito autoral, no sentido de propor uma revisão do papel do Estado
nessa área”, afirma Marcos Alves de Souza, da Coordenação-Geral de
Direito Autoral do MinC. “Estamos buscando alternativas dentro do marco
legal internacional para a implantação de um sistema equilibrado de
relação entre os titulares de direitos e o cidadão”.
Foros internacionais
O
Brasil é responsável – junto à Argentina – pelo projeto que deu origem
à Agenda do Desenvolvimento, aprovada em 28 de setembro pela
Organização Mundial da Propriedade Intelectual – Ompi. As propostas,
que dispõem sobre a reforma das normas da Ompi, enfatizam a necessidade
de facilitar o acesso dos países menos desenvolvidos ao conhecimento e
à tecnologia.
“Hoje, nossa margem de manobra é baixíssima”,
reconhece Souza, aludindo aos tratados internacionais que impõem
limitações à reforma da lei brasileira. “As propostas de alteração
legislativa têm que estar dentro dos marcos dos tratados
internacionais, e o Brasil não pode violá-los. Pode-se dizer, desse
modo, que uma reforma acaba sendo limitada”, concorda Carboni.
Nesse
sentido, o advogado acredita que é fundamental avançar nos foros
internacionais e elogia a atuação na Ompi. “O Brasil assumiu um papel
de negociador dos direitos intelectuais e isso é extremamente positivo,
porque não ficou só em retórica”, afirma.
Apreensão
Paralelamente
à agitação do Fórum, setores envolvidos com a democratização da cultura
observam com apreensão a saída de Gilberto Gil do Ministério da Cultura
no próximo ano. Thaís Carrança, pesquisadora do Grupo de Pesquisa em
Políticas para o Acesso a Informação da USP (G-Popai), é taxativa: “é
preciso se articular e pressionar para que uma mudança na legislação de
direito autoral aconteça enquanto Gil ainda estiver no cargo, sob o
risco de a mudança não sair, ou sair contrária ao interesse público de
acesso à informação”.
Isso porque, apesar de o debate ter se
ampliado no país – com a criação de grupos de estudo, do portal Domínio
Público, o desenvolvimento de softwares livres e a popularização das
licenças Creative Commons –, ainda não há uma política consolidada para
a questão do direito autoral.
“O Brasil é sempre apontado como
um dos países pioneiros e o MinC vem tomando posições bastante
interessantes e avançadas. Mas são apenas posições e declarações de
intenções, e não uma política de governo que envolva todos os
ministérios”, analisa Carboni. Decorre daí algumas contradições
interministeriais: de um lado, as declarações progressistas do MinC e,
de outro, a existência de um Conselho Nacional de Combate à Pirataria,
orientado sob a ótica repressiva.
Marcos Alves de Souza, por
sua vez, descarta a possibilidade de descontinuidade. “O fato é que o
bloco está na rua, ou seja, independente de quem entre, a questão está
lançada. A política de direito autoral é uma política de governo e de
Estado”, afirma.
