Papo com Vint Cerf, um dos pais da internet
Veículo: Fórum PCs - 21/11/2007
No Internet Governance Forum, que aconteceu no Rio semana passada, tive
a oportunidade de conversar com Vint Cerf, um dos pais da internet.
Falamos sobre várias coisas, mas a parte mais interessante do papo foi
quando lhe perguntei se, ao criarem o protocolo TCP/IP nos anos 70, ele
e Bob Kahn imaginavam que a internet se tornaria essa coisa
avassaladora que é hoje. Cerf me respondeu que eles não imaginavam que
ela seria uma infra-estrutura global, mas que a arquitetura do
protocolo foi criada para crescer, para ser escalável. “Fizemos a coisa
de modo que todo tipo de rede pudesse se conectar facilmente a ela.
Sabíamos que nosso design tinha algum poder. Nosso objetivo era
suportar uma quantidade indeterminada de redes, de modo que qualquer um
que fosse capaz de seguir as regras e os protocolos se tornaria
rapidamente uma parte da internet.”
Ele reconhece que isso não aconteceu somente graças aos belos olhos
do protocolo da rede, mas teve inúmeros outros fatores. Por exemplo, a
invenção do sistema de nomes de domínio, por Jon Postel e Paul
Mockapetris. “Com isso, eles incluíram na grande rede outro mecanismo
muito escalável, que não estava presente nos primeiros tempos da
internet. No começo, tínhamos um arquivo de texto chamado 'host.text'
que era publicado regularmente (todos os dias, na verdade). Ele
continha uma lista de nomes de hosts e endereços IP. Era só isso,
apenas uma lista atualizada todos os dias pelos engenheiros. E isso foi
algo que não cresceu, pois essa informação precisava ser mais
centralizada. O sistema de nomes de domínio chegou para resolver essa
questão.”
Vint Cerf durante o Internet Governance Forum
(foto de divulgação)
Outros fatores levaram a internet a ser o que é hoje. Cerf fala da
velocidade. Hoje, diz ele, o backbone da internet chega a velocidades
de 10 a 40 gigabits por segundo. Naquela época, a velocidade era de
parcos 50 quilobits por segundo (!). Hoje, a quantidade de nomes de
domínio disponíveis está acabando – afinal, o IPv4 foi implantado em
1977 (lá se vão três décadas, pois. Agora é a vez do IPv6). “Eu espero
que as pessoas me perdoem”, comentou Cerf, humildemente, “por não
conseguir imaginar que, 30 anos depois, seriam necessárias mais 4,3
bilhões de terminações para dar continuidade ao processo... afinal, a
população naquela época também era menor”.
Por outro lado, este americano de 64 anos demonstrou que ele e Kahn já
tinham alguma idéia de que a rede poderia se espalhar, porque
perceberam, à sua volta, que existiam (em 1973!) muitas das aplicações
que hoje tomamos como corriqueiras. “Elas só não estavam disseminadas
ainda. Mas estavam lá, em sua forma inicial. O e-mail, a transferência
de arquivos, o acesso remoto a máquinas... A computação pessoal já era
nossa conhecida. O PARC (Palo Alto Research Center, da Xerox) já tinha
inventado o computador pessoal, o Alto [o Xerox Alto foi o primeiro computador a usar uma interface gráfica para usuário e a metáfora para a área de trabalho].
Eu sabia da existência dele porque meu laboratório, na Universidade de
Stanford, ficava a uns três quilômetros do PARC. E alguns de nossos
estudantes trabalhavam lá, de modo que havia muita interação e troca de
informação sobre o que estava acontecendo. Também conhecíamos a noção
de hiperlink, e um protótipo do que viria ser a World Wide Web, que
vinha sendo demonstrado – ainda que dentro de apenas um computador –
desde 1968.”
Para Vint, as sementes da explosão ciberespacial estavam todas lá;
mas faltavam, ainda, as condições econômicas para ela. “Os computadores
ainda eram máquinas grandes e caras; só instituições como universidades
e centros de pesquisa podiam se dar ao luxo de tê-los. Hoje, alguns
dispositivos móveis têm mais poder que alguns mainframes de então. Acho
que isso, realmente, não conseguimos imaginar.”
De qualquer modo, ele e Kahn sempre tiveram em mente que seus
protocolos deveriam ser padronizados internacionalmente, porque
desejavam que todos participassem da festa (eis aí uma lição para quem
acha que tecnologia é só para ganhar dinheiro).
E, embora Cerf seja hoje vice-presidente do Google e tenha deixado
recentemente a presidência da Icann (organização que cuida dos nomes de
domínio no mundo), pode-se ver o brilho em seus olhos quando ele fala
do seu projeto preferido: levar a internet a novos destinos, além do
nosso mundo. Há anos, ele está trabalhando duro com o Jet Propulson
Laboratory na criação de um novo protocolo capaz de vencer as grandes
distâncias do espaço profundo (e os problemas de comunicação inerentes
a essas distâncias). O protocolo – na verdade, um conjunto deles – se
chama Delay (and Disruption) Tolerant Networking, e sua intenção é
padronizar a comunicação entre missões espaciais (tripuladas ou não)
aos planetas do Sistema Solar. Desse modo, elas poderiam se comunicar
entre si e com a base na Terra, trocando informações em cima de uma
rede comum. “A distância entre os planetas leva a longos delays na
informação – para ir daqui a Marte, um dado pode levar hoje 40 minutos
- e os movimentos celestes muitas vezes interrompem a comunicação. Se
você está do lado 'errado' de um planeta, não consegue falar com a
Terra. A idéia é que os novos protocolos sejam resistentes a esses
problemas, e que missões de diversos países possam usá-los para trocar
informações e reforçar seus objetivos.”
Eu fiquei ouvindo Cerf discorrer sobre essa rede interplanetária e,
em minha mente, começavam a soar as primeiras notas da introdução de
“Jornada nas estrelas”. Só que a fala seria diferente: “Espaço, a
fronteira final. Esta é a nave Internet, prosseguindo em sua missão de
explorar novos mundos, novas civilizações. Audaciosamente indo onde
ninguém jamais esteve...”
